quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

Lei Nº 5672/71

       Formara-se atriz, e era também professora. Tinha um coração enorme e os cabelos pintados de vermelho.
       Ligou para as amigas:
-Vou com vocês.
-Vai?!
       Foi.
       Um luxo que, às vezes, seu curto salário de fundação educacional e sua filha pequena permitiam: viajar com as amigas.
        Carla era sempre muito querida em qualquer programa. Era muito animada, podia ser menina e mulher como por mágica. 
 Chegaram à uma São Paulo chuvosa, deixando pra trás uma Brasília chuvosa. Foram direto para o Bexiga, eram boas de copo.
        Lá pelas tantas, já alta, Carla foi embora. Queria voltar para o hotel e respeitar seu descanso. Foi caminhando pois gostava disso, aceitava seus pensamentos.
       Foi interrompida por um choro embolado. Estava ali, sentada num canto, uma mulher negra, muito magra. Os cabelos, que haviam sido domados por muitas camadas de gel, escapavam, rebeldes, dessas presilhas que a gente vê aos montes nos camelôs.
       Ela chorava bêbada, humilhada. Respondeu, aquela criaturazinha, que acabara de ser expulsa de um daqueles bares finos dali.
        Ela não tinha dinheiro? Sofrera preconceito? Dera algum vexame? Carla não perguntou. Usou sua elegância, vestiu-se em seu blazer, e foi ao tal bar.
       Chamou o gerente, pois sabia que os funcionários pouco ajudariam.
-Pois não, senhora?
-Boa noite! Estava eu em um coquetel com o Ministro Antonio Carlos Jobim, quando minha cliente me ligou alegando que fora expulsa deste recinto sem justa causa!
       O gerente arregalou os olhos. Não imaginaria que aquela senhora bêbada que os seguranças, gentilmente, arrancaram da mesa de um grã-fino, teria condições de pagar por um advogado.
       Para tornar a situação mais verossímil, Carla sacou sua carteirinha do sindicato dos professores e passou rapidamente pelos olhos atônitos do gerente, para mostrar sua suposta identificação e completou:
-Segundo a lei Nº 5672/71 (alguma lei relacionada a educação, que ela lembrava na hora), a minha cliente sofreu preconceito e a penalidade é...
-Não doutora, tenha calma! Aceita um drinque!
-Estou trabalhando! Respondeu, ofendida.
       A senhora humilhada foi recebida pelo gerente, que lhe implorou o perdão, que ela pode dar com uma arrogância nova, gostosa.
       Depois foram tomar uma saideira, para comemorar.  

Nanna Carolina 

sábado, 25 de junho de 2005

Florescer

       É uma menina triste, não coube em suas mãos uma dúzia de flores, então ela caiu entre os humanos. Ela chora, quem sabe suas lágrimas a limpem. Ela brinca, mas já não consegue ser criança...
       Deram-lhe a pedra para pôr no caminho, respiraram seu cabelo de laranja, olharam-na nos fortes olhos perdidos, e ela apenas subiu no seu calendário para espiar através do muro. Mas ainda chora. Olhou de novo para ontem, sorriu de novo entre os porcos, deixou de novo a cabeça pesar sobre o corpo...
Lá vai ela correndo, finge não ver o caminho, sucumbe e cala seus sentimentos. Perde a força, carrega pesos, fica exausta, grita (!) Sua voz é forte e há muito estava encarcerada.
       Ela tirou os sapatos e sentiu a terra e vontade de voar e chamar a chuva. Por alguns instantes, vê-se ela com o corpo deixado num canto., permitindo-se sonhar. O que sonharia, a menina triste? Castelos perfeitos e príncipes encantados? Ou sonharia diferente das meninas felizes?
       Com a voz trêmula, ela canta uma canção e mergulha no próprio ser. Depois de expandir-se ela volta, mas traz consigo uma lança, olha pra todos que esperam (sempre) uma reação. Ela crava a lança no peito
       Espera menina, não faça isso, agora nós te entendemos!!!
       Mas uma serenidade invade seu rosto, e ela dorme, agora com o mesmo sorriso das meninas felizes.

Nanna Carolina 

sexta-feira, 13 de agosto de 2004

...

Vergonha.
Tenho suspiros. Chegam cansados.
Medo de rir, meus dentes estão sujos.
Medo de cantar, desafino aos ouvidos em paz.
Medo de seguir, nunca estou certa do caminho.
Um espaço no mundo só pra sentir DESESPERADAMENTE!!! Drogas, entorpecimento.
O furacão se foi e a calmaria me mata, fui mostrando meus braços, aflitos por se algemarem.
A cegueira me invade, e como ardem-me os olhos, que agora refletem o inferno.
Lágrimas de novo, mas com a força de um oceano no cio. Ou como uma bomba.
Bomba? Não sei se meus retalhos de lágrimas podem explodir. Aprenderam somente a retrair-se.

Nanna Carolina 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2004

Era de Aquário- Verão- Constelação de Aquário- Séc. XXI - 23h45min


       Acho que ouço de forma diferente o mesmo que todos estão ouvindo. Invento uma masturbação de ego, invento poses novas para essas mesmas fotos, escarro meus medos para minha voz parecer melhor...
       Alguns transeuntes pensamentos estão sendo barrados pela linha de força. Existe, por fora, uma manifestação qualquer contra o crescimento do meu pé-de-feijão.
       Nem sei que postura tomar na frente de crianças viajando como eu, procurando um néctar alucinógeno para dançar qualquer música. Às vezes, a gente quer que nossos ídolos sejam sempre felizes, mas se fossemos nós os ídolos, sentiríamos o peso dessa cobrança. De certa forma isso pode matar.
       Algumas pessoas precisam de mais dicas para acertar a resposta, e elas odeiam o sacrifício de aceitar ajuda. Eu também... 

Nanna Carolina 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2004

Segunda Freira

       Me sinto cobaia de um deus puto que, além de tudo, eu tenho que puxar o saco, senão ele castiga. Estou com vontade de tomar umas atitudes, mas acho que vou acabar ficando sentada por aqui, olhando esses retratos e tendo recordações. Estou me aprontando para minha crucificação, já me vesti de dor e vou cumprir todo esse ritual sádico que todos gostam tanto de ver. Do lado de cá dos meus olhos de chuva ácida passam algumas poesias, mas acho que essas coisas não combinam com esse mundo. Vejo um monte de pré-defuntos vagando, não são nada além de um pacote pronto, mas, mesmo assim, julgam ter cumprido os “doze trabalhos”. E o mundo fervilhando de pendências.
       Existem coisas que me parecem óbvias e incrivelmente abandonadas. Às vezes sinto saudades de quando eu aprendia a crescer e achava que realmente havia algo depois de virar a esquina. Estou viciada em mundos fictícios de várias formas. Às vezes até me fazer de vítima me faz bem, mas, neste caso, o que impera é sentimento de outro metiê.
       Algumas músicas que ouço me dão uma grande vontade estranha por dentro. Nessas horas percebo as prisões que estou e quais eu gosto. Vejo a força desperdiçada.
       Se o dia que vier não se vingar de mim, vou rir outra vez desse meu medo. Agora sinto uma entrega da minha parte que forma um imenso não ter o que dizer.

Nanna Carolina 

sábado, 24 de janeiro de 2004

sábado reticências...etc blá blá blá


       Meu coração vazio está cheio de mágoas. Uma luz amarela deste boteco de fundo de quintal está doendo minha vista. A gente encontra muitos sabores e, às vezes, preferimos enfrentar e amar o amargo. Então, é o prazer de experimentar que dá sentido ao meu existir.
       Sinceridade. Quero dar esse passo para comigo. Ser entregue é muito difícil para quem não acredita na eternidade. Eu creio, e me entrego ao prazer como se fosse um colo. Nem estou pousada na Terra agora, mas entro em combate comigo e acabo por aceitar tudo de novo... há coisas que queria saber falar mas não consigo me traduzir. Meu pensamento não é dado a imagens, prefere sensações. Explode por dentro.  É complicado não querer dominar o mundo como os outros da minha época.

Nanna Carolina 

terça-feira, 20 de janeiro de 2004

Domingo pede Cachimbo

       Por ora, a bagunça de fora mal atinge a de dentro. O vinho quente da promoção ainda não trouxe risadas. Bato à porta do meu quarto, peço a mim uma permissão para entrar. Não vejo a hora de estar ébria e envolvida, mas tenho medo da carne mais quente que respira meus ares neste quarto vagabundo. Depois eu vejo os sorrisos cínicos de quem só vê minha máscara mal feita. Tive sonhos turbulentos essa noite e acordei querendo revivê-los. Cansei de me debater na frente de nivelados. Sinto-me um tanto interrogação, agora aflita por alucinar-me e não perguntar mais nada.

Nanna Carolina 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2004

       Estou cheia de vontades que parecem explodir no meu ventre. Todo dia tomo uma dose cheia de verdades para a noite cair e eu me embriagar de mentiras. Estou de novo atravessando uma ponte podre de vícios, por um triz...

Nanna Carolina 

terça-feira, 13 de janeiro de 2004

Corpos débeis, lucros através da fome, medo de evoluir... felicidade!!! Posso contar as pedras do meu caminho. Queria que estes tais de bem e mal fossem mais bem delimitados. Todos são muito venenosos e generosos, me dá um pouco de sono isso tudo. Às vezes nos pegamos tão idênticos a toda essa tontura, por mais livres que brinquemos de ser. Não sei se vejo a miragem ou ela me observa a querer continuar minhas coisas (Quem sabe esse seja meu sonho). Tenho tantas personagens para experimentar, quem sabe eu nem seja tão preciosa no andar da existência, mas quero ser, pelo menos, minha própria droga transcendental, minhas eternas reticências...

Nanna Carolina 

domingo, 11 de janeiro de 2004


        Estou completamente mal humorada! Não tento me entender e entro em desacordo. Estou a procurar ferrões para por nas mãos para ferir aos outros e a mim. Sinto uma íntima falta minha. Às vezes percebo minha cara toda quebrada e faço força para continuar coisas como levantar a caneta. O calor da minha cidade me faz pressentir prisão, parece que nada se encaixa. Meus pensamentos agem como piratas, estou ficando louca outra vez.
       Seguro um pedaço de morte em cada mão, a vida dorme entediada ao meu lado. Tantas habilidades, eu podia nem ser tão entregue. Noto minha pele envelhecendo minhas tatuagens. Desenhos acompanhando meus desenhos... Vejo a ignorância sendo o forte das pessoas e reflito sobre os fortes. Todo mundo é tão igual por aqui. Às vezes gosto de estar falando alto quando todos me pedem silêncio. Sei de gênios morrendo no escuro e me dá medo... Preciso escutar outras palavras, os de muito conteúdo extrapolam.
       Gosto de ver meu sangue ruborizando meu corpo de menina. Converso só com o vento e ele sopra angústia.Eu fui pluma no vento, mas me perguntei demais o porquê, já não posso ser levada. Tornados incríveis se fazem presentes e nem eles me arrastam daqui. Estou só demais quando percebo que minhas pernas é que sustentam o peso do meu corpo.
       Estou cheia de dores e até gosto de algumas, mas ao todo não completam nem o vazio que eu invento. Parece que a vida é um tipo de éter vagabundo que eu não quero mais usar, mas essa corja de viciados quer me convencer. Meus dedos, minha vista, meu caráter... tudo dói. Volto a ser eremita na multidão e meu vestido preto é a sempre máscara que desenhei. Gostaria que anjos, demônios e Dionísios realmente existissem, quem sabe essa luta ficaria mais interessante. Queria saber de onde vêm os nomes, porque a pele que goza é a mesma que sangra  e pra quê o passado fervilha na minha frente? Já me servia conseguir calar tantas perguntas.

Nanna Carolina 
        

sexta-feira, 2 de janeiro de 2004






Meu gato preto olha pela janela. Saberá ele o inferno em que está inserido? Sua beleza está intocada, apesar das experiências. Estar aquém a tudo é melhor do que a beleza.

Nanna Carolina 

            Sinto medo deste inverno, que chega ao baile na hora em que tremo. Medo de perder o que nem sei se tenho. A estranheza chega-nos como uma cobra. Não faminta, mas sempre ameaçando dar seu bote.

       Depois de ver os olhos vazios, continuo procurando formas de preenchê-los sem espelhar esses fantasmas. Quero adivinhar-lhe os pensamentos, mas quais são os meus nessa mistura? Gostaria de dissolver-me em eternas palavras, mas cavando fundo até meus mais leves sentimentos, prefiro passar despercebida. Passar...
       Seria um alívio ver um dia de minha vida passar, mas tenho sentimentos que entopem seu escape e eu fico vivendo de novo. O mesmo dia que não passa.
       Tô de novo mendigando algo que dou de sobra. Nem precisava voltar ao meu cemitério astral e, no entanto, cá estou eu, presa às certezas acerca do amor, que são minha marcha fúnebre. Presa em um dia que é igual a todos os outros dias desamados. Pobres e tristes dias, abandonados em um cemitério tosco, sem receber visitas, senão as minhas, que sou sua prisioneira. Dias sem amor, pra que servem? O que são além de fantasmas esquecidos, mal queridos, passados? Invejam os dias de amor, que são eternos. E me aprisionam, pois é forma de existirem.
       Deixem-me passar! Quero fluir pra fora dessas horas inúteis, quero a vida útil dos que são amados.
Saio do cemitério, sei que de fora parece um circo. Dias cínicos, fingem que não aprisionam. Qualquer um que se livra de vocês quer fazê-lo correndo.
     Olho dentro destes mesmos olhos vazios, como poderiam ser a solução para alguma coisa? Parecem não ter vida nem para si, como podem me inspirar tanto amor e esperança? É daí que vem o escape para estes meus dias irônicos e doentinhos? Sinto medo deste inverno, muito medo.

Nanna Carolina 

sexta-feira, 27 de junho de 2003

Botijão de gás


-Quero aquela bebidinha.
       Tava falado! Ela com ar infantil e rebelde, fora mimada por toda a vida. Ele se arranjava, nunca precisou herdar nada.
       Ela ia onde queria, pois tinha família influente. Ele ia onde queria, pois tinha lábia fluente.
       Estavam em Pirenópoles, Ela fugida de casa, Ele com Ela.
       O dinheiro deles havia acabado, mas esse era um problema que não os afetava.
       Então ele foi. Entrou na bodega, assoviou em sânscrito, enrolou um pouquinho, e levou para a princesinha punk o troféu de seu desempenho.
-Obrigada!
        Apesar de bem criada, tomou metade da bebida em uma golada no gargalo.
       Saíram felizes. Eram assim, alegres. Menos quando brigavam. Eram violentos, mas esse detalhe faz parte do final. Sempre faz.
       Então eles estavam felizes. Passearam, chamaram muita atenção: eram bonitos e diferentes.
-Quero aquela comidinha.
       Tava falado! Ele foi lá, pediu com todos os seus melhores argumentos que afiava há anos, e como sempre levava pra Ela o melhor prato. Ele sempre conseguia.
       Certa vez:
-Poxa, acabou o dinheirinho! Quero mais!
Tava falado! Ele achou dinheiro. Incrível?! Mas ele achou mesmo.
        Estavam na casa de um amigo em Pirenópoles, um malucão aposentado. Numa dessas casas que acabam funcionando meio comunidade. E foi ali que brigaram.
       O dia ainda estava novo quando foram tomar banho juntos. Durante o banho, por algum motivo que só Freud explica, cutucaram as mesmas velhas feridas. E brigaram.
       Tudo ia acabar em agressões e beijos analgésicos, mas dessa vez ele fez cair a gota d’água.
        Durante as agressões mútuas, ele se descontrolou e jogou na privada o “sabonete liquido para peles finas” dela. Aí esquentou que só. Ela resolveu mostrar sua ira punk. Saiu a passos largos do banheiro, pegou seu cinto de correntes e castigou as costas dele. Resolveu voltar pra casa, quem ele achava que era?
-Vou embora!
Tava falado! Arrumou suas coisas. Ele saiu de perto...
       Ela foi descendo a íngreme rua para a rodoviária quando viu a viatura da polícia passar com ele lá dentro, no banco de trás.
“Ué” pensou.
       Ele havia saído de perto dela, nem achou que ela fosse mesmo embora. Quando viu ela indo mesmo entrou em desespero. Pensou desmaiar, saiu gritando só por dentro, descontando nas mandíbulas travadas toda sua dor. Entrou na primeira vendinha que viu. Esta vendinha ficava bem em frente à casa que estavam, apesar de ele acreditar que andou quilômetros. Ele viu um botijão de gás, abraçou-se à ele, e o seqüestrou.
        A dona do botijão logo ligou pra polícia e quando esta chegou não teve muitos problemas. Encontrou Ele, na casa do aposentado, sentado em cima do botijão, chorando com olhos vermelhos e gritando: “Me leva, me prende!”
       Prenderam.
      Ela foi embora, sem certeza se era ele ou não naquela viatura.
      Ele ficou preso.

Nanna Carolina