quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fi de quem?


Fim do Mundo




Quem não tem sua  própria versão sobre nosso apocalipse? Com punições divinas, desastres naturais, caos e tudo de ruim que a mente humana pode imaginar, este mítico dia é até esperado por alguns. Com um fundinho de vingança, alguns religiosos já condenaram à danação eterna toda a população humana que não se "preparar" para o fatídico dia. 
Percorre em alguns o sentimento de culpa paralítica de quem se sabe cúmplice dos cavaleiros do juízo final e se intimidam em tentar reverter tamanho espetáculo. Encarando os fatos, todos sabemos que nossa estadia em Gaia não pode ser eterna, pelo simples motivo de as coisas assim o serem. No entanto, o que me preocupa não é esse estrondoso final, mas a qualidade de vida típica dos doentes terminais a que nos submetemos e naturalizamos. O fim do mundo, desta forma, não é mais do que uma misericordiosa eutanásia de uma espécie que já não tem sentido. 
Uma espécie que desaprendeu a cumprir as simples leis deste planetinha azul. Aceitamos "evoluções" que simplesmente não se adaptam sequer às nossas necessidades. Daí o coleguinha Darwin nos fala que, em toda a natureza, são as espécies que melhor se adaptam às leis e ciclos da Terra que sobrevivem. Nós perdemos todo o ritmo daqui, não importa mais se é dia ou noite, se é verão ou inverno, esquecemos o básico sobre a cadeia alimentar em que estamos inseridos, a sobrevivência se tornou uma coisa individual e o grupo que se f..., Humanos odeiam humanos, dividem gênero, raça, castas...
 Qualquer coisa pode desestruturar tudo que entulhamos da dita evolução até aqui. Desastres naturais, choques ideológicos, desesperos em massa, falta de energia elétrica, combustível ou outro vício humano, a descida de um E.T. ou a volta de Jesus. Não estamos, preparados, de fato, para nada.  
Desta forma, o tal do nosso fim me parece uma derrota espiritual da nossa especie, uma inadaptação ao mais simples aliada à uma corrida cega à suposta evolução do Homem.  Enfim, não é à toa que todos anteveem o fim.  


Nanna Carolina


Vivienne de Watterville : o apelo da selva.



Por Tânia Navarro

O que nos trazem estas mulheres de aventura em suas narrativas?

Mostram, de início, a presença das mulheres em todos os campos de atividade e em todas as épocas, ali mesmo onde se pensava que estavam unicamente no interior doméstico, cuidando das crianças. Elas rasgam o espesso manto da memória social que não cessa de cobrir as atividades das mulheres tanto no social quanto no político.

Estas mulheres de aventura abrem assim um novo campo da história, aquele que costumo chamar de “história do possível”. É a história que acolhe todas as possibilidades do humano, dos sistemas sociais que não fazem do sexo seu ponto central, arma para impor a dominação de um pelo outro, segundo a “natureza” dos corpos biológicos.

Suas aventuras mostram também que há uma escolha, em todas as épocas e espaços, de ultrapassar o papel ao qual se pretende assujeitar as mulheres a um destino biológico que as define enquanto corpo específico capaz de procriar .

Assim, elas demonstram, com suas proezas, que as coerções não são sempre tão rígidas, sobretudo no caso de mulheres européias, que aqui nos interessam. Isto significa que as representações sociais que continuam a ser recriadas sobre o passado são, sobretudo aquelas de um patriarcado do presente, que pretende desta forma justificar a dominação das mulheres a partir da tradição e da natureza, nos discursos e na memória social.
Elas são legião, aquelas que decidiram seguir seu desejo de liberdade, de independência, que deixaram família e país para ir à descoberta da diversidade. Traçam assim por sua experiência de vida e de viagem, uma subjetividade além das dicotomias mulher / homem. Quer seja nos mares, nos ares, nos desertos, nas selvas, na pobreza ou na abundância, com financiamento oficial ou com seus próprios recursos / trabalho, elas percorrem o mundo que suas narrativas nos fazem descobrir. E nos espantam a cada passo.

Como escolhi nomes e caminhos de mulheres de aventura para serem analisados e comentados?
Por simples acaso da pesquisa, pela simpatia que despertaram, o tipo de aventura que viveram, nada de preciso, nada de fixo, eu navego em suas águas e busco seus nomes e seus livros em toda parte.

Vivienne de Watteville

Esta que hoje me interessa é Vivienne de Watterville, mulher de aventura, amante dos animais, em busca das solidões mais absolutas, dos grandes espaços interiores, inseridos em uma cartografia cujos contornos são por ela determinados. A Natureza a encanta com sua força e sua beleza.










O que finalmente a faz correr para a África, país de boas e más lembranças? As más dizem respeito à morte de seu pai, Bernard de Watterville, morto por um leão em 1924, durante uma expedição na África do Sul., no Zimbábue, Ken ia e Uganda. Ele fora encarregado pelo museu de história natural de Berne de reunir os melhores espécimes possíveis da fauna africana. Vivienne o acompanhava e assumirá em seu lugar o restante da missão.

As boas lembranças são o espetáculo das savanas e das florestas selvagens, da Natureza acolhedora, do companheirismo, da presença de seu pai até seu desaparecimento.

Há uma poderosa atração exercida pela África, que leva uma quantidade de mulheres a explorar, viajar, realizar seus sonhos, sua busca de liberdade que encontram nas savanas sem fim.

Com efeito, apesar da febre, do desconforto, das privações e das distancias, a África, diz Vivienne, é um imã:

“ Apesar de tudo, a África é um dos lugares mais fortes que existem no mundo. O calor, a poeira, os mosquitos... [são] nadas, prosaicos nadas![...] o que, depois de longo tempo permanece na memória é este algo de furtivo que todos, em graus maiores ou menores, buscam sem cessar e do qual, em raros instantes, em lugares isolados, a África nos concede, a inesquecível e fugitiva visão.” (TE :14)

Este sabor a sustenta e a natureza a chama. É então que ela vai ao encontro dos animais, não mais como caçadora implacável, não mais para persegui-los, um fuzil em punho, mas para conhecê-los, para vê-los viver, para se iniciar com eles aos prazeres da vida, na liberdade da savana.


“Meu sonho fora sempre de ir para as estepes, sem armas , ou seja, sem premeditações e ganhar a amizade dos animais selvagens.” (TE :11)

O que ela quer, na verdade, é tomar “um chá com os elefantes”.

A máquina fotográfica em lugar do fuzil e ela corre as trilhas sob um sol implacável, sem atentar para a poeira e insetos que a envolvem, para encontrar os rebanhos de antílopes, de rinocerontes, de girafas, de zebras e muitos outros animais, sem falar de uma busca constante dos elefantes, seus preferidos.

Seus amigos a desencorajam e a única pessoa que a apoiou foi... sua avó, que exclamou, ao ouvir seus planos:

“ Ah, se eu tivesse quarenta anos menos, eu iria com você! A solidão! É o que há de melhor no mundo, é a única maneira de se aprender alguma coisa” (TE :10)

Estas palavras não fizeram senão incitar Vivienne: a solidão da savana, povoada porém deserta, selvagem e deliciosa, sombria e prazerosa. A solidão à qual ela aspirava incluía também afastar-se dos brancos, seus hábitos, suas hierarquias e modismos, suas representações da vida e das relações sociais, sua loquacidade e seus ruídos inúteis aos quais ela queria escapar. Mas era encarar sua própria solidão enquanto indivíduo que a interessava:

“ Na base de todas nossas vidas há uma grande e terrível solidão, à qual, em fim de contas, não podemos escapar. Entretanto, indo de encontro a ela, no meio do caminho descobre-se que seus terrores eram ilusórios. A solidão é uma aliada, não há nada a temer, pois verdadeiramente a Natureza nunca traiu aqueles que a amam." (PMC :146)

E há também a percepção de um mundo que estava acabando, de uma Natureza que não seria mais a mesma em pouco tempo. E é desta natureza ainda vivaz que ela pretende saborear. Explica:

« Eu estava naturalmente dentre aqueles que se insurgiam contra o progresso quando este por fim ligar estreitamente o mundo e reduzi-lo, de abrir a África a automóveis e aviões demais.” (TE :66)

Sem falar dos caçadores, das expedições de massacre de animais cujos restos macabros eram transformados em troféus para inflar egos inseguros. É espantosa a quantidade de animais dos quais Vivienne fala e avista, perseguindo-os com sua máquina fotográfica: espécies múltiplas, carnívoras, herbívoros, répteis, toda sorte de pássaros. O que deles restou hoje? Ela é precursora dos safáris-foto, que, entretanto, levaram tempo demais para substituir uma caça predatória sem limites.

Sua volta para a África, em dois momentos consecutivos, na savana e nas montanhas nos anos 1930 permitem-lhe de reencontrar no Quênia velhos companheiros, além da liberdade e da solidão que almejava e das quais tinha necessidade.

Quando parti para a planície não sonhava em passar dois meses em um refúgio de montanha no alto do Quênia. Foi melhor que eu o ignorasse, pois isto me tornaria impaciente e considerando agora estas duas aventuras diferentes em seu caráter, não sei realmente qual foi a melhor[...] e ainda que tivesse tido como objeto os elefantes e a outra a montanha, foram para mim uma comunhão de intenção que as reuniu uma à outra e lhes deu uma mesma conclusão.” (TE :23)

Misteriosa, não temos muitos detalhes sobre sua vida. Sabe-se, entretanto, que nasceu em 1900, e morreu com 57 anos, filha de uma inglesa e um suíço. Supõe-se que não era pobre, pois financiou suas viagens às suas próprias custas.

Suas andanças pelo Quênia a levam em um vasto território cujo percurso necessita a autorização do Diretor gral do Serviço de Caça em Nairóbi: ela queria entrar na Reserva meridional dos Massai, até o limite do Tanganica. Disseram-lhe que “era de longe o melhor lugar que restava e que os animais selvagens eram numerosos.” (TE :18)

Vivienne teve muitos problemas para obter esta licença pois ingenuamente havia declarado a todos os ventos o objetivo de sua viagem :




“As fotografias não tem grande importância [...] o que eu desejo realmente é criar laços de amizade com os animais.” (TE :9)

O Diretor não é conciliador:

“[...] Você vai passar sua mão sobre o seu dorso! É insensato! Não será jamais permitido sua partida para uma expedição tão absurda!” TE :19)

Seu projeto provoca a derrisão da comunidade inglesa local :

“Aí reencontrava ainda a Inglaterra; aí, eu estava no portal da aventura e pronta para partir, mas não via ninguém que tomasse minha expedição a sério. Quando a ela aludia, começavam a rir com gosto.” (TE :19)

Mas ela não desiste e finalmente consegue, através da amizade do secretário do diretor a ajuda de que precisava e isto em diversas ocasiões: ele lhe manda, onde quer que ela se encontre, livros, víveres ( frutas, legumes, ovos, manteiga,etc.) (TE :20)

Vivienne preza seu conforto : organizou sua expedição meticulosamente e transportou 20 caixas com seu material, que compreendia o necessário para sobreviver, mas também um gramofone, discos, suas máquinas fotográficas, caviar, champagne, salmão defumado, lagosta, patê de foie grãs, livros preferidos, sem esquecer, claro,

“ [...] lanternas, cantis, potes, caçarolas e todo o encantador e indispensável material que uma expedição deste tipo reclama[...](TE :21)

Confessa se envergonhar um pouco com a posse destes objetos de luxo e acrescenta, com candura “[...] trouxe-os para o caso em que ficaríamos reduzidos a rações muito magras[...]”(TE :78)

Depois de muita discussão e dificuldades, ela consegue finalmente partir inicialmente por trem e em seguida caminhão, “ o meio de transporte mais caro que já se foi inventado”, com seus seis empregados que ela chama de “boys”, segundo o costume da época: uns são encarregados de montar os acampamentos, outros da cozinha, um deles deve seguí-la em seus passeios para assegurar sua proteção ( exigência do Diretor). Jim era seu fiel empregado que já havia trabalhado com ela e seu pai em sua última e infeliz expedição.

“ [..] ele mantinha tudo perfeitamente limpo e em ordem: rapidamente percebeu meus hábitos e previa meus desejos. Ele compreendeu rapidamente meu amor pelo silencio. »(TE :44)

Havia também Karioki, « admirável cozinheiro”.

“Ele possuía uma infatigável imaginação e ainda que nossas provisões fossem pobres, ele não suportava se repetir[...] estava sempre de bom humor, de uma honestidade escrupulosa e exercia uma excelente influencia sobre o acampamento.” (TE :45)

Por outro lado, Mwanguno, velho companheiro igualmente,

“ Quando não havia nenhuma razão para reclamar, ele reclamava com todas suas forças, a tal ponto que se podia crer que ia criar um motim entre os outros boys. Mas quando, ao contrário, as coisas iam efetivamente mal, ele mostrava então todo o devotamento que se escondia não se sabe onde sob esta estranha raiva.” (TE :43)

Muthungu, membro da expedição anterior, “[...] era bem pequeno: suas vestes eram sempre uns trapos como os de um mendigo profissional. [...] Mas ele era cheio de boa vontade e ele também fazia parte do passado.” (TE :45)

Asani, seu companheiro de andanças, do qual ela gostava muito e Mohamed, imposto pelo Governador para « protegê-la” . Seus sapatos com pregos eram o terror de Vivienne, pois o barulho que faziam chegava aos animais bem antes que eles pudessem ser vistos.

“Mohamed, desde o início, não havia cessado de ser um espinho em minha carne. Jê nunca tivera vontade de trazê-lo e detestava o enorme fuzil para elefantes que ele carregava no ombro em qualquer lugar da savana em que me seguia com seus sapatos ferrados.” (TE :38)

Esta era portanto sua equipe , que a ajudava nos trabalhos quotidianos e a acompanhava em suas loucas corridas atrás dos animais, durante horas. E não atrapalhavam seu desejo de solidão, pois faziam parte desta África que ela viera busca: mas entravavam, às vezes, seu caminho, pois como todo mundo, não compreendiam seu objetivo. Observar os animais? ! « Que idéia ! » quase se podia ouvi-los murmurar.



A escrita de si

A solidão era para Vivienne um caminho de serenidade e de força, uma busca do equilíbrio, de uma unidade, de harmonia.

“ Na solidão era possível ter um distanciamento para ver claramente o objetivo a perseguir.[...] mas resta-me o aprendizado de alguma coisa tão delicada que o equilíbrio não pode ser encontrado com segurança e que na verdade se passa toda a vida a buscar. E é dado a poucas pessoas encontrá-la e chegar a um conhecimento de si tão exato que permita atingir fora de si mesmo a uma eterna liberdade” (TE :76)

Seus livros não são autobiográfico, são a narrativa de um caminhar, de um desejo paradoxal de encontro na solidão.

Norma Telles , a propósito da escrita de Virginia Woolf :

Woolf pretendia fazer a escrita da vida- life writing- uma noção fluida que substitui o conceito tradicional de biografia[...] Para ela era preciso buscar os momentos penetrantes na história e na vida trazidos do mundo social do sujeito, sobretudo daqueles que indicavam movimento e mudança[...](Telles, 2011 :3)

A escrita de Vivienne de Watterville está justamente localizada na transumância da experiência, esta lenta transformação do olhar, movimento proposital mas sem um fim preciso, apenas os prazeres da visão, do ouvido, do olfato, sentidos primários sufocados pelos ruídos do humano e suas obras.

É uma escrita de si, tal como a define Margareth Rago:

“Compreendo a “escrita de si” como uma das atividades constitutivas das “estéticas da existência”, como uma das tecnologias pelas quais o indivíduo se elabora e constitui sua própria subjetividade[...][...]. (Rago, 2011 :2)

Os livros de Vivienne de Watterwille representam assim a imagem de uma ativa transfiguração: sua busca inflexível da solidão a coloca face ao outro absoluto, a Natureza: de caçadora impiedosa Vivienne torna-se amante dos animais vivos, aquela que escuta o canto dos pássaro, que observa a vida se desenrolar diante dela, sem buscar aprisioná-la ou destruí-la.

Sua escrita aponta para estes “momentos penetrantes” cuja importância toma a forma de life-writing, a construção de si sem limites, sem obstáculos, sem termos, sem conclusão. Ao lado de sua aventura propriamente dita, feita de perigos, de escaladas, de longas marchas nas savanas e montanhas do Quênia, perseguida e perseguindo os animais, é a aventura de sua vida que se desenha em traços efêmeros pois sempre redesenhados. Diz ela:

“ Não há nenhum perigo em exagerar a introspecção: ela não atinge senão o umbral do conhecimento de si, pois logo que se conhece algo, procura-se outra coisa. Na Natureza aprende-se a se conhecer a si mesmo como o objeto mais próximo com o qual se dever viver e trabalhar e só então se pode esquecer sua própria existência no milhão de coisas interessantes e belas que nos envolvem.” (PMC :84)

Agrada-me de pensar que o caminho de Vivienne de Watterville representa uma escrita de si, um movimento de expansão para um equilíbrio sempre precário entre o in e o out em um processo de interação com a Natureza – o outro absoluto – que se faz na solidão, na busca da harmonia.

“É preciso para atingir a harmonia uma perseverante concentração. Ela não espera com os braços abertos [...] É preciso se perder no todo para se reobter a si mesma.[...] Sente-se uma imensa força, livre e simplificada não pelo si mesmo, mas porque se é isto.”

Tomar o tempo de auscultar o tempo que passa, o silencio povoado de pequenos ruídos agradáveis – o canto dos pássaros, a música das águas, o andar calmo dos animais, toda a vida da savana que com freqüência se esquece.

Vivienne se exprime assim :

« Eu amava este lugar que ninguém conhecia e voltava sempre a ele pois o que desejava [...] era obter a amizade com o mundo a minha volta, ao menos compreendê-lo. Sozinha no silencio atenta e na beleza desta solidão, chegava às vezes à seus limites. Estendida no chão, o coração apertado contra esta terra vermelha, a fronte contra as pedras, eu sentia não apenas o contacto físico; assim deitada, eu sentia que também era feita desta mesma terra que tocava e amava, composta dos mesmos elementos que compõem as rochas, as árvores ou as estrelas, assim como os pássaros e os animais[...]” (TE :145)

A linguagem é aqui testemunho da experiência constitutiva do sujeito, um conjunto de atos, de percepções, de memórias, de re-programação de reflexos, de hábitos perdidos, do novo olhar sobre as coisas vivas, sobre os detalhes esquecidos de uma natureza luxuriante. Com efeito, Vivienne atualiza seu processo de subjetivação a todo instante e acompanhamos, partilhamos seu caminho através da leitura.

Seu objetivo, neste sentido, não visa domar os anseios do corpo, a violência dos desejos para transformá-lo em um sujeito “moderado”; não há aqui uma relação à verdade sobre si (Foucault, 1984 :102/103) pois o sujeito é em construção, não há uma essência “verdadeira”.

O prazer é de outra ordem, para além da moral, para além das pulsões sexuais, do sistema sexo; gênero. São, portanto, práticas de si que se desenvolvem e se renovam em prazeres de si, que não tem necessidade de abstinência ou de moderação, de normas, injunções, de temperança.

“ [...] A primeira condição para a felicidade é a serenidade de espírito [...] e é o que a Natureza nos ensina: andar simplesmente, olhar as coisas com afeição e aprender a paciência que não pode nascer senão de um amor infinito.(PMC :119). Aqui, nesta cabana de uma só peça minha porta se abre diretamente sobre o flanco da montanha: as folhas , como mensageiras amigáveis flutuam na brisa matinal e os pássaros pulam sem nenhum medo a meus pés. Não posso evitar de pensar que tiramos uma alegria mais doce e completa destas coisas que do fardo e da responsabilidade dos bens que deles nos separam. “(PMC :82)

Os prazeres de si não são feitos unicamente de uma união contemplativa da natureza, mas de uma ativa presença que incorpora os elementos à seu projeto de “ criar amizade com os animais”, em profunda interação com a Natureza ela mesma. O olhar, o ouvido, o gosto, o tato, todos os sentidos são mobilizados nesta busca de interação e de percepção da natureza:

"Da floresta se eleva o odor de uma vegetação luxuriante, acre, ácida e doce ao mesmo tempo, nas trevas e o cheiro da terra, do orvalho e do fogo de lenha; o ruído da água que corria sob as pontes e as notas líquidas que parecem sinos, as rãs, traziam em torno de mim esta floresta agora invisível” (PMC :16)

Entre estes prazeres, evidentemente, o gosto da aventura, que não estava livre de perigos.

“ A vida, ela mesma, pensava eu, não é atraente senão quando a vivemos perigosamente, aceitando o combate com uma confiança satisfeita, arriscando tudo e se dedicando de todo coração. Nada nos pertence com toda segurança, nem a vida, nem o amor, nem o dinheiro, nem os bens, a menos que estejamos prontas a tudo abandonar a todo momento. Pois logo que queremos abrigar algo de todo risco, já o perdemos assim como a liberdade de espírito.”»(TE :109)

Vivienne de Watterville parte em busca destes prazeres de si explicitada em poucas palavras : fazer amizade com os animais, incorporar a linguagem os humores, as belezas da natureza.

De um ponto de vista feminista, é um ser que não parte de sua condição social de “mulher” para realizar seus projetos. Pois ela não depende do consentimento de ninguém para realizar seus sonho, mesmo se parecem um pouco malucos para todo o mundo. Ela sabe o que quer e não assinou nenhum “contrato sexual” (Pateman) que define as mulheres em função do biológico e da “ordem natural”.

Em nenhum momento se percebeu em sua escrita um assujeitamento qualquer às normas e coerções impostas às mulheres pelas sociedades inglesa ou africana- de onde ela vem e onde se encontra. Para os africanos ela não era uma mulher, mas um representante dos colonos dominantes, e podia, portanto, viver como bem lhe parecia; para os ingleses ela era excêntrica e os ingleses adoram isto, a excentricidade faz parte de seu way of life.

As coerções que fazem parte do “ser mulher” não a tocam: ela não é presa nem do dispositivo da sexualidade  ( de sua época) nem ao dispositivo amoroso. Nada de amor romântico, nada de maternidade para atrapalhá-la em suas viagens, nada de fragilidade ou fraqueza diante dos elementos e sobretudo uma firme vontade de ter sua independência, de seguir seus desígnios, suas aspirações, mesmo se elas são “irracionais”.

Neste sentido, todas as mulheres de aventura não são mulheres, pois elas recusam os limites, as obrigações, as representações e imagens sociais que definem o “ser mulher”, a heterossexualidade obrigatória e a injunção à maternidade. O que elas nos mostram estas mulheres de aventura, é a construção social do sistema sexo / gênero pois em suas viagnes elas não encontram as coerções que “generizam” seus corpos-em-mulher, em sexo social Se como indica Teresa de Lauretis é a experiência constitutiva individual em relação com o meio social que cria o gênero “mulher”, elas circulam em suas viagens enquanto estrangeiras a seus corpos, estrangeiras de si e igualmente aos “outros” sociais que querem fixar-lhes um pertencimento, uma identidade.

Os animais






Entretanto, tudo não é feito de beleza e harmonia: o calor é sufocante, os mosquitos, a poeira, as moscas, mas nada a impede de ir para toda parte, Ela faz escaladas, se perde nas florestas, entra em moitas afiadas, cai num formigueiro, mas se refresca nas águas dos riachos, sempre em sua busca pelos animais. Às vezes é forçada a ir muito longe, mas aos poucos os animais se aproximas e em breve ela terá SEUS quatro elefantes que quase lhe permitem a aproximação.

Vivienne queria se instalar, ter um acampamento de base a partir do qual ela iria em busca dos animias, onde ela pudesse também observá-los e se integrar à natureza, sentir o silencio, escutar as estrelas. Não pretendia se estabelecer no Quênia, como muitas de suas compatriotas; não queria também viver com os naturais do local. Ela vivia uma busca pessoal que se desdobrava em longas caminhadas pela savana e também as escaladas perigosas sem cordas e sem equipamento. Gostava de abrir novos caminhos, perder-se, encontrar-se, observar toda espécie de animais. Sobretudo os elefantes!

Suas narrativas são tão pitorescas quanto filosóficas, pois ela está constantemente meditando sobre o que lhe acontece. Suas descrições são belas, ela tem o dom da escrita, é engraçada, irônica, crítica mas sobretudo deslumbrada pela Natureza que a circunda, sob todas suas formas, flores, árvores, arbustos, pássaros de toda sorte, céu, tempestades, deserto, montanhas.

Seu acampamento é seu chez soi e cada dia a natureza a surpreende e encanta

“ Minha árvore era o refúgio de uma colônia de pequenos pássaros cujo pipilar e agitação me envolviam enquanto sentada em minha cama, eu olhava sob a beira do teto, na direção da clareira inundada de sol e brilhante de orvalho e das árvores com ramos achatados que cintilavam como esmalte sobre o implacável azul do céu”.(TE :31)

Ela descobrirá, entretanto, que o local escolhido para acampar estava sobre o caminho dos rinocerontes e dos elefantes que iam beber no riacho. .(TE :154) Isto lhe fez medo? Nada disto!

« Eu havia acabado de chegar para o café da manhã quando vi três elefantes avançar lentamente através do acampamento e passar ao pé da colina, para tomar a trilha habitual” (idem)

Em vez de lhes correr atrás, eles vinham até ela! Mas não era suficiente, pois não havia ainda tido a oportunidade de “ tomar chá” com eles, tornar-se sua amiga. Ou quase. Ela tornara-se, talvez, simpática a eles.

« No dia seguinte ia em busca dos elefantes ; encontrei-os, ali pelo meio dia, na parte mais espessa da floresta repousando do calor.[...] balançavam-se docemente de um pé para o outro, meio adormecidos, fazendo ruidosos grunhidos: de tempos em tempos, eles se abanavam com suas orelhas; quando enfim perceberam-me, meio dissimulada atrás de uma árvore, a alguns metros deles, olharam-me de uma maneira tolerante e sem a menor suspeita.[...] Um dos elefantes apoiou suas presas contra um galho e adormeceu: enquanto ele dormia[...] uma grande borboleta amarela girava em volta de sua cabeça. Isto deu o último retoque à intimidade pacífica da cena; tive então a impressão que não tinha senão que deixar de lado minha máquina fotográfica e andar na pontinha dos pés até os elefantes e me sentar tranquilamente a seu lado.” (TE :155)

Parece-nos ver estes grandes e sonolentos elefantes sob a sombra das árvores, eles parecem tão calmos... mas Vivienne sabe muito bem que eles podem se tornar ferozes e atacar com uma rapidez incrível Finalmente ela decide não ir lhes oferecer uma chávena de chá, para grande alívio de seus boys.

Alguns outros encontros tão pitoresco quanto este com os animais são porém perigosos:

“ Víamos todo tempo traços de rinocerontes , de búfalos e de elefantes. Eu andava na frente, os olhos presos à pista quando atingi uma grande rocha que se encontrava no meio do caminho. Ia rodeá-la quando de repente ela se levantou perto de mim, com um barrido aterrorizante de um rinoceronte. Dei um pulo para trás [...] e em um piscar de olhos nos dispersamos como palha ao vento".(TE :120/121)

E já que seu objetivo era se aproximar dos animais, ela comenta, com humor:

“ O leitor pode, com razão, se espantar de que eu não tenha aproveitado desta explendida ocasião e nada teria sido mais fácil que de subir no rinoceronte adormecido e coçar-lhe atrás das orelhas. Talvez ele gostasse disto, mas se não, as ocasiões de renovar esta experiência teriam sido para sempre reduzidas".(TE :123)

Vivienne teve outros encontros inesperados

« Eu avançava tranquilamente entre as árvores quando fiquei com o pé levantado, surpresa por um repentino grunhido raivosa e recuei vendo um leão partir literalmente sob os pés.” (TE :141)

Vivienne recebeu muitas visitas em seu acampamento, rinocerontes que o atravessaram, leões que rondavam, girafas que apareciam, antílopes que passavam, avestruzes que se lançavam em perseguições, rebanho de zebras que quase a esmagava ( ela descreve um potrinho-zebra de uma beleza incrível), pássaros em toda parte. A quase um quilômetro de seu acampamento, impalas ( antílopes) bebiam no riacho(TE :36-37) Ao lado deste incessante vai e vem, Vivienne recebeu também a visita de duas inglesas que iam ao Tanganica e passaram por lá para ver esta excêntrica que queria criar amizade com os animais.

Se ela não conseguiu esta proeza, os animais ao menos estavam lá, em grande número e em grande variedade! Além disto, ela havia feito um esconderijo próximo ao leito do riacho onde “[...] eu passava agradavelmente meu tempo a observar os pássaros” enquanto os grandes animais não apareciam para beber.

Estas descrições nos fazem sonhar :

“A noite caia: a brisa dissolveu até a menor nuvem de um céu onde as estrelas brilhavam com uma pureza cristalina. Elas inundavam de música as colinas, as enfeitavam de uma beleza que me envolvia e me transportava.[...] O tempo cessava de .existir. (TE :146)

E aí, surpresa !

« Antes de me levantar no dia seguinte, olhava lá fora e vislumbrei um elefante sob a árvore perto da tenda. Ele não mostrava nenhuma pressa e arrancava tranquilamente os ramos.” (TE :146)

Um convite para o café da manhã passou-lhe pela mente ( será que ele gostaria do porridge ?) mas foi logo abandonado, pois o vento havia mudado e ele mostrou um grande mau humor vendo-a, e ela rapidamente entrou na tenda.

O refúgio

Depois de sua temporada na savana, que durou por volta de 6 meses, Vivienne de Watterville realizou um outro sonho e uma outra aventura, a de ficar em uma cabana-refúgio, nos flancos do monte Quênia, a uns três mil metros de altitude. Se na savana ele teve febre, ataques de malária repetidos, na montanha ela sofreu do frio e de uma dor de dentes horrível. Ela mesma arrancou seu dente. Primeiro, amarrou-o a uma linha de pesca, presa no alto de uma viga e tentou saltar. Nada. Então...

« Veio-me a idéia de amarrar a linha no alto da porta, de tal maneira que ficou esticada quando eu me punha na ponta dos pés. Isto funcionou admiravelmente, pois a dor no dente era ainda menos penosa que ficar na ponta dos pés durante cerca de duas horas; mas eu não consegui mesmo assim arrancá-lo completamente e a dor tornou-se tão intolerável que peguei o alicate na caixa de ferramentas e finalmente a operação” (PMC :124)

Pouca gente teria esta coragem!

Desta vez ela fica realmente só, pois os carregadores depositaram seu equipamento e foram embora.

« O silencio após sua partida era tão sensível que, por assim dizer, vê-lo, como se fizesse parte do ar leve e azul e destes picos longínquos que tremiam na luz líquida ao ponto de se dissolverem na pureza do céu. (PMC :118)

Mas ela não estava totalmente só, pois sua cachorrinha, Siki, estava sempre com ela. Era uma pequena das ruas, charmosa e brincalhona, pequena e corajosa. “Ela era de uma incurável desobediência, mas eu admirava sua audácia[...] eu não teria podido montar minha tenda tão longe [...] Siki estava lá para me proteger.” (TR :140)` Ela consegue domesticar algumas perdizes, algumas tourterelles ( pequenos pombos), espia as corneilles de asas vermelhas, penetra na floresta primitiva, “[...] asilo secreto de paz”. (PMC :132) O refúgio torna-se seu novo chez soi, acolhedor, cuja simplicidade aumentava o prazer de lá estar.

Durante dois meses ela saboreia a natureza, experimenta os eflúvios das flores, mergulha nas águas geladas dos riachos, caminha pelas trilhas, escala sem cordas, lê, vive intensamente a solidão, o silencio, a harmonia. Mas ela teve também que combater o fogo que destruiu os arredores da montanha e durante dez horas a batalha foi feroz para evitar que seu refúgio fosse destruído.

No silencio e na solidão, Vivienne de Watterville vive seu sonho, realiza sua aventura de escalar a montanha Quênia, incorpora-se à natureza que ela tanto aprecia. A seu redor, as cores e os sons se misturam:

[...]eu compreendia bem que isto não dependia de linhas, apenas de cores: cores vivas, verdes e azuis, amarelos incendiados pelo esplendor da manhã, flores douradas se destacando sobre o azul,; uma coloração tão viva que parecia formar uma canção.” (PMC :21)

E a música completa seus prazeres, os prazeres de si: com seu gramofone que a seguia por toda parte, ela ouve música de chambre, seus clássicos preferidos que se entrelaçam aos rumores da natureza.

« Nas asas da música, parece-me enfim possível voar através do silencio e abraçar a eternidade. Esta noite, depois de deliberar longamente sobre a escolha a ser feita, decidi-me pelo Trio ao Arquiduque de Beethoven. Nesta noite africana, o efeito foi extraordinário, que emoção senti ao escutar o mais belo dos movimentos lentos se desenrolar sobre um fundo onde se mesclavam os ruídos da floresta, o canto dos grilos, dos pássaros da noite e o longínquo rugir dos leões”. (TE :34)

Vivienne de Watterville foi uma mulher livre, independente, corajosa que soube realizar seus desejos, construit sua subjetividade fora das normas, dos limites impostos às mulheres; ela construiu uma vida ou um momento de aventura inestimável para sua escrita de si.

Ela confessa seus medos e os vence, ela brinca com os perigos e pouco lhe importavam as dificuldades ou os obstáculos em seu caminho. Mulher extremamente simpática, mulher de aventura. Teria ela me convidado a tomar um chá? Com ou sem elefantes?

segunda-feira, 12 de março de 2012



Crianças são sábias.


Não. Humanos não são fofinhos.





Estas mulheres de aventura !

Maud Fontenoy, a travessia do Atlântico norte e do Pacífico a remo!




Quem é esta mulher jovem, linda, esbelta, braços de ferro e sonhos de aço? Maud Fontenoy, nascida em à Meaux no dia 7 de setembro 1977 é uma navegadora francesa praticando não só o remo como a vela.

É uma mulher de aventura, destas que afrontam os perigos e o impossível; ela tem medo, sim, mas não cessa de perseguir os horizontes infinitos do mar. É isto a coragem, de fato: afrontar o medo !

Um mar terrível, que a acolhe para melhor desafiá-la , com suas profundezas abissais, seus monstros dissimulados, ses cinco mil quilômetros de solidão em volta dela, suas dez quilômetros de abismo e desconhecido.

Maud atravessa os mares sozinha, sobre um pequeno barco a remo! Ela atravessa o Atlântico norte, o mais difícil e não contente, o Pacífico, o oceano de todos os perigos, de todas as esperanças e desesperanças.

A rota do Atlântico norte é um pesadelo e Maud é a primeira mulher a percorrê-la de forma solitária e a remo. Seis homens apenas conseguiram fazê-lo, muitas outras tentativas foram abandonadas ou terminaram quando o mar colheu e engoliu para sempre os infortunados. Não é para todo mundo, uma proeza igual a esta!

Os marinheiro de Saint-Pierre et Miquelon, porto do qual Maud partiu a observam com olhos arregalados, pois eles conhecem este mar, " eles sabem que é intratável, cruel, caprichoso, imprevisível e sobretudo, que não é feito para as mulheres, como gostam de sublinhar" (AFN,25). Então, « Não, é uma brincadeira, não é ela? [...] A loirinha ?Não ? é uma loucura ! » (AFN,24).

Não é uma questão de braços poderosos, diz ela, mas de vontade e determinação .(PMN,29)Para o senso comum, esta proeza frisa a loucura pura e simples para uma mulher, cuja representação social corrente é de fragilidade e dependência. Mas Maud a faz explodir em mil pedaços: ela se investe totalmente em suas aventuras e não esconde sua angústia e seu medo, o que a torna ainda mais forte e admirável. .

Tanto se falou dos  Vikings ( séculos X, XI) que teriam vindo para a América, tanto se exaltou esta proeza, tão difícil àquela época ! Falou-se também dos portugueses, dos ingleses, holandeses, espanhóis, sobre suas caravelas e veleiros (século XV e após) sobre os mares e oceanos, tanto se admirou sua resistência às dores, fadigas, tempestades, calmarias, falta de água potável... mas eles não realizaram suas proezas individualmente e a remo! ! Maud o fez.



Dêem às mulheres a escolha - remos, asas, velas, trenós, camelos, cavalos, rodas - e elas realizarão todas as proezas! Encontramos mulheres efetuando descobertas, explorações, tomando caminhos ainda não percorrido, em todos os campos: basta não criar leis que as impeçam, basta não reduzir seus pés, mutilar seus sexos ou cobrí-las de véus, basta não acorrentá-las a um destino biológico, não impedí-las de sair, de dirigir, de estudar, de ser esportivas. Basta dar-lhes a possibilidade de ser cidadãs, sujeitos de suas ações, de seus corpos, de sua força, de seu trabalho. E sobretudo, basta não impedí-las de sonhar, impedir que haja sonhos em seus horizontes. O sonho, para Maud, era o impulso de todas suas proezas.

« A felicidade está em muitas coisas, mais perto do que se imagina. Está na realização do que escolhemos . [...] O mais difícil, na realidade, é assumir o que somos, em seguida ter a coragem de realizar seus sonhos, suas escolhas, seus projetos, quer sejam difíceis ou não, sobre a terra, sobre os oceanos, no quotidiano ou por vezes. » (PMN,150).

Maud é um ser completo, mestra de sua vida como de seu barco, sofre as incertezas do mar e das correntes, mas sempre com a vontade de vencer, de ir ainda mais longe, de passar além dos limites e das barreiras. Seu sonho é a aventura, a liberdade, o sopro do vento, os respingos do mar qui embalaram sua infância. Com efeito, até os 15 anos Maud viveu com sua mãe e seu pai e seus dois irmãos sobre um veleiro. (PMN,30). O mar é seu domínio e sua alegria. Assim, ela conhece perfeitamente os perigos de suas aventuras marítimas :

« Lembro-me terem me anunciado que os dez primeiros dias seriam insuportáveis. É preciso este tempo para dominar o corpo, esquecer seus antigos hábitos de vida, de conforto da terra firme para aprender a suportar os movimentos incessantes do barco e entrar enfim nesta penosa solidão [...] Eu olhava rapidamente os mapas, é incrivelmente longe. Nem acredito que me lancei nesta louca aventura .» (AFN,38-39)

O caminho escolhido para atravessar o Atlântico foi o mais difícil, pois é o domínio das depressões geradoras de tempestades, dos ventos que viram de repente, das águas cruzadas, do vento que sopra no sentido inverso da progressão do barco. E além disto, o frio cortante, a bruma, a falta total de sol durante o primeiro mês.

Ela narra :

« Durante mais de um mês eu estagnei, avancei com dificuldade, depois voltei sobre meus passos. Perco em vinte e quatro horas o que ganhei duramente em mais de quatro ou cinco dias. [...] Em todo este período no qual recuava tanto que quase fiquei maluca, pus-me a remar, seja qual for a hora .[...] quer faça calor ou não e eu remo e remo ainda q[...] e cada vez que o vento começa a soprar, é uma desolação ». (AFN)146)

Maud parte de Saint-Pierre et Miquelon na costa canadense no dia 13 de junho de 2003 na direção da Europa : ela só chegará à Espanha no dia 9 de outubro ! Quatro meses sobre o oceano mais perigoso, o mais difícil. Mesmo a travessia do Pacífico não será tão complicada. Maud tem 25 anos naquele momento e festejará seu aniversário sozinha no meio das ondas.


O que a levava a esgotar suas forças nos remos, hora por hora, dia após dia, quatro meses de solidão, o objetivo sempre longe, tão longe...

«Claro, o que realizei é uma proeza física, mas para mim era antes de mais nada uma viagem. Era a liberdade, a verdadeira, aquela de escolher o além dos limites, de lutar para viver o que se tem no coração e de ter enfim esta extraordinária sensação de se realizar .[...] Não tenho o estado de espírito de uma grande esportiva, mas o de uma aventureira, sim, se ouso dizê-lo... Evidente, o caminho que escolhi não foi o mais simples, mas é justamente isto que o torna fabuloso . » (AFN,116-117)

A morte a encara todo o tempo: seu barco vira 17 vezes em uma só tempestade; há tubarões que a espiam, baleias que avançam sobre ela e mergulham no último instante, navios que não a vêem, pequenino ponto perdido no oceano e que quase a atropelaram. O dessalinizador que quebra e a água que se acaba e a fome que se instala - a fadiga esmagadora, a falta de sono e omito outros detalhes .

Como se apresentam os barcos que Maud utiliza para estas duas travessias? Para a travessia do Atlântico, o barco se chame Pilot, 7,50m de comprimento, 1,60m de largura, um GPS, um telefone iridium, um radar, comida liofilizada, um fogareiro, roupas, dois dessalinizadores, 3 pares de remos, para o caso de necessitar uma troca. Sua cabine tem 1m cúbico e torna-se uma gaiola úmida e sufocante segundo as condições atmosféricas, como explica Maud. (AFN,20) Para o Pacífico, mais ou menos igual, o barco se chama porém Océor, comprimento de 7,50m, largura de 1,60. Mas desta vez temos maiores detalhes sobre o equipamento, como por exemplo uma caixa de ferramentas, 2 balizas Argos, uma combinação de socorro, 1 chaleira, uma linha de pesca, 1 caixa de farmácia, 1 câmera, 3 livros, 1 leitou MP3 e é mais ou menos só isto. Tudo o que necessita para arriscar sua vida sobre as ondas traiçoeiras dos oceanos. 7.300 km para a travessia do Pacífico e mais ou menos o mesmo para o Atlântico. E ela rema

« Meu corpo assim mesmo começa a trabalhar, tento esquecer minha cabeça pesada, fecho os olhos, meus braços se tencionam, em minhas mãos o par de remos busca a água o mais longe possível, minhas pernas tomam apoio sobre o apoio para os pés e empurram energicamente, meus músculos se crispam, os remos plenos de água voltam lentamente para a traseira do barco . [...]Debruço-me de novo e recomeço, incansavelmente o mesmo movimento. Obrigada a obedecer este ritmo monótono, imponho-me o esquecimento de meu corpo, rapidamente, ele prossegue como um robô. Não conto mais os minutos mas as estrelas que se acendem uma a uma no céu sobre mim. » (PMN,56-57)







Desde as primeiras linhas de seu livro sobre a travessia do Atlântico norte, sentimos o ambiente: a tempestade que cresce, as ondas de 5 / 6 metros que quebram sobre o minúsculo barco e pronto! o barco emborca pela primeira vez e que não será a última!

« Pilot desce do cimo da onda a e cai no fundo, com um salto. Parece-me ouvi-lo soluçar. Isto não devia ser assim. Oh, não! não desde o início! Não aguentarei nunca três meses desta maneira. O barco se contorce, geme em toda parte, o mar bate e bate e rebate contra a fina parede, não somais mais que um pequeno brinquedo insignificante na mão do oceano, sacudido em todas as direções, projetado sem cuidado por torrentes de água. » (AFN,20)

Felizmente, não é todo tempo assim, é difícil de suportar tantas emoções! Ler os livros de Maud é fazer as travessias com ela, é sofrer suas dores, viver o mar agitado e as ondas gigantes, sinto-me à beira de um precipício sem fundo.

Quanto sofrimento ! Maud tem costelas quebradas, o pulso torcido, tem tendinites constantes, as palmas das mãos machucadas pelos remo e assim de repente, o dessalinizador quebra e não há mais água nem para beber, nem para desidratar os alimentos. Durante a travessia do Atlântico norte, já esbelta, Maud perde 10 kg. Sofre tempestades incríveis, que duram às vezes três dias, durante os quais Maud não pode sair de abrigo, sob o risco de ser projetada na água. O barco vira 17 vezes em uma só e terrível tempestade, Pilot suporta, mas com algumas sérias avarias> Dois homens que haviam partido para singrar a mesma rota abandonam a travessia, por causa deste tempo completamente furioso. t (AFN, 133) Ela não. Permanece, apesar de tudo e continua sua aventura.

Trinta horas de tempestade. Ondas de 10 m de altura que se precipitam sobre o pequeno barco com sua pequena Maud dentro.

« Elas chegavam por trás com um rugido que fazia os cabelos ficarem em pé. Estou tetanizada de medo, cada parcela de meu corpo treme, minha mandíbula crispada, estou à beira do pânico, em plena crise de angústia [...] não posso mover minha perna, grito de dor, de desespero. Não consigo respirar, não há mais ar, tusso, cuspo [...] um medo incontrolável me invade, estou machucada da cabeça aos pés, não tenho nem mesmo a força de abrir a escotilha para deixar entrar o ar. » (AFN,123-124)

O mar se torna um ser em fúria, o vento enlouquece, levantando enormes massas de água. Abismos desmesurados se abrem quando as vagas se levantam e Pilot cai, a pique :

« Ele corre [...] com uma rapidez vertiginosa, praticamente na vertical, vejo o buraco, o abismo embaixo de nós [...] Estou perdida, totalmente impotente. Está tudo tão negro, a água fria, na boca o gosto da morte [...] » (AFN,126)

Por que? Porque este sofrimento ?

A aventura é como uma obra de arte, ela não tem um fim em si - é, de fato, a construção de si que está em jogo. Ir além dos limites, esquecimento de contornos do corpo, de semelhanças, dos detalhes de seu próprio rosto, do olhar do outro. Que importa? É o apelo do deserto tórrido, do mar furioso, ou de extensões geladas, ou ainda de montanhas altaneira. É esta natureza que conta.

«Interrogo-me sobre as razões que o oceano tem de me conservar à sua proximidade J[...] IEle decide tudo, eu só preciso baixar a cabeça, suportar suas mudanças de humor, aguentar suas monstruosas cóleras e me dizer que ele não poderia ficar eternamente aborrecido [...] iEle me tolera desde o dia 13 de junho, abriu-me um estreito caminho, fechando os olhos sobre meus pequenos braços... e minha ´condição de jovem mulher´, como me disse um jornalista um dia . » (AFN,117-118) «O mar não perdoa, tenho clara consciência que não devo acordar a força sobrehumana adormecida em baixo de mim. Sinto-me andando na ponta dos pés, nas costas de um leviatã adormecido. Sei que em breve despertará, é inevitável, mas quanto mais tarde, melhor. » (AFN,116)

Na aventura, o esforço, a paciência, a perseverança é que contam, é um quotidiano extenuante, seja na poeira, no calor, no frio, nas multidões , nos problemas burocráticos, barreiras climáticas... Todas estas formidáveis mulheres de aventura que nos fazem partilhar seu caminhar através de seus livros narram o desejo que as habita, este apelo do largo, dos horizontes sem limites, da grandeza infinita dos horizontes, deste desejo transbordante de liberdade! As dores, a angústia, os perigos, o medo, são apenas parte da aventura. Nada mais.

Maud não se envergonha de seu temor, mas sua vontade de aço a sustenta: onde tantos outros abandonaram, ela continua. E ela suporta quatro meses em lugar dos três planejados para a travesseia do Atlântico.

Tempo de solidão, de reflexão, de trabalho forçado, mas igualmente de uma beleza indescritível, das noites estreladas, o oceano com mil reflexos prateados, adoráveis lontras que a observam, olhos brincalhões.

« Sob meus olhos, cinco longos pescoços emergem. Sou observada. São as lontras [...]Em pequenos grupos elas brincam umas com as outras a cerca de cinquenta metros de mim. Tenho a impressão que a terra desapareceu há uma eternidade, estou só sobre uma gigantesca extensão de água salgada e esta companhia inesperada, minúsculo ponto na imensidão azul que me cerca faz-me bem. Não as perco de vista. O oceano me desvela generosamente uma parte da vida que o anima, quebrando assim meu isolamento. [...] Estes encontros roubados à monotonia do quotidiano fazem parte do maravilhoso desta viagem, desta aventura que tento tornar o mais humana possível .» (PMN,47-48-49)

Os golfinhos também vem vê-la e a segurem por um pedaço de caminho, sempre alegres, falando sua linguagem, adoráveis criaturas que nos fazem esquecer os monstros das profundezas!

« Alguma coisa soa, em algum lugar[...]Uma dezena de golfinhos que dançam em volta de Pilot. O oceano começou a cintilar. Os grandes golfinhos, provavelmente ´marsouins´ brincam de passar e repassar sob a embarcação .[...] Ponho a mão na água e a agito, eles avançam para me tocar. É elétrico, extraordinário. Tenho o estomago, o coração, o espírito que se enchem instantaneamente de alegria, de leveza,de doçura [...] Eles parecem sorrir, fazem mímicas, ruídos, pequenos gritos engraçados. .[...] após tantas dores, angústia, eles me trazem sobre uma bandeja dourada pelo sol, o reconforto, a alegria e sobretudo a sensação fabulosa de estar um pouco menos só. Estou emocionada por sua ternura. » (AFN, 101-102)

Os livros de Maud são imagens vivas de ação : com ela estamos sobre as águas, sacudidas pelas tempestades, com um medo terrível dos tubarões e das profundezas abissais, e eis que os navios passam sem nos ver e quase nos esmagam. As baleias, os golfinhos, as lontras, os dourados, o pequeno pássaro que vem se repousar no barco, tão longe da costa são uma festa. Choramos as lágrimas da chegada e as lágrimas da impotência. É uma aventura fascinante, uma verdadeira mulher de aventura, e estamos com ela. E sua imagem abre a todas as mulheres suas próprias possibilidades, seus desejos de ação, sua auto-representação. Ela mostra às mulheres que sim, podemos realizar nossos sonhos!

Não sei se Maud se considera uma feminista, mas ela o é, não há nenhuma dúvida. Ela mostra o que uma mulher pode fazer e partilha sua aventura com colegiais, pela internet, em ligação com várias escolas. Estas crianças não poderão jamais dizer que uma menina não pode fazer isto ou aquilo. Viram, quase ao vivo, do que uma mulher é capaz . Além de se construir como um ser em movimento, Maud transforma a imagem do mundo, pois o "natural" do feminino é totalmente desconstruído por ela. Em visita a um colégio parisiense conta que

« As crianças não acreditavam em seus olhos. Eu havia instalado um mapa do Atlântico e trazido minha máquina para fazer água potável e alguma comida desidratada para que compreendessem melhor .[...] Meus olhos se fixam no desenho de uma jovem que escreveu Maud com fotos de sapatos de verniz que havia cortado em forma de letras; isto era uma interrogação suplementar para elas, vestida de mulher, parecendo, estou certa, com suas mães e falava-lhes de naufrágios, violentas tempestades, consertos... E você tem filhas? perguntavam espantados. Como se uma mulher como eu não fosse verdadeiramente uma mulher, que podia ter filhos. Uma mãe não pode ser uma aventureira que atravessa o oceano a remo ! » (AFN,69-70-71)





As ações e teorias feministas mudam e modificam, há mais de meio século as relações entre feminino e masculino e colocam em questão o sexo biológico enquanto base da divisão de trabalho, de responsabilidades, de importância social. Com efeito, o biológico que serve de pretexto para criar uma hierarquia entre os sexos não é senão uma construção social fundada na vontade de poder, nos discursos de "verdade" da ciência, da religião, das tradições e costumes e sobretudo das representações sociais, que, de fato, instituem o mundo segundo eixos de poder, definidos como "naturais". Os estereótipos, as normas, as leis religiosas e civis fazem das mulheres seus alvos. L

Mesmo nas democracias ocidentais, onde as mulheres deveriam ter todos os direitos, elas ganham menos, são minoria nos postos de comando de administração do Estado ou nas empresas privadas. E que sejam presidentas ou "do lar" são suscetíveis de sofrer todas as violências ligadas a seu status social de mulher, logo, dominadas / disponíveis / apropriadas. É assim que a metade da humanidade - as mulheres- é ainda atualmente tratada como mercadoria, enquanto corpos a serem utilizados , vendidos, trocados, degustadas, cuja força de trabalho é explorada de maneira específica, sancionada pelas instituições tais como casamento e prostituição .

As representações sociais são a base das relações humanas pois constroem os seres segundo valores, proposições que tem valor de verdade. Criam assim um saber que justifica e institui os seres classificados segundo o gênero, a raça, a origem, etc. A partir deste conhecimento estabelecido pelos discursos sociais e pelas imagens assim desenhadas, os homens acham normal a apropriação das mulheres, normal a utilização da violência e dominação para melhor submetê-las. É assim que a diferença sexual foi estabelecida para definir a hierarquia social, para fundar o poder de uma metade da humanidade sobre a outra. Pois, quando há uma diferença, há seu fundamento, um referente que define os parâmetros e neste caso, é o masculino que os materializa.

É junto às crianças, nas escolas, que se pode modificar a noção de "diferença sexual" e isto depende de se deixar às meninas a possibilidade e o prazer da ação, da criatividade , dos estudos, dos esportes e do trabalho. Quando Maud fez sua busca de financiamento , a representação social das mulheres se mostrou uma desvantagem pois certas pessoas contactadas pensaram até que era uma brincadeira :

« Lutei com graves preconceitos, contra os receios e dúvidas solidamente ancoradas, até encontra minha imagem de jovem mulher. Hoje é o momento de lhes provar que tinham razão de acreditar. Que o hábito não faz o monge e que feminina como estava em meu tailleur e saltos altos, eu podia da mesma forma vencer um desafio audacioso, como o atravessar o Atlântico norte a remo. » (AFN, 42)

Uma mulher foi seu primeiro apoio e sua primeira partner, , Claudine Salmon, de "France Info", além de Marie-Claire Pauwels, redatora chefe de "Madame Figaro". Esta última havia decidido, segundo Maud, "ajudar uma mulher a desabrochar em um desafio pessoal" (AFN,43). Claro, depois de sua vitória, todo o mundo afirmou que ter certeza de que conseguiria realizar a proeza !

Assim Maud estabeleceu uma nova imagem do feminino, forte, independente, dotada de uma vontade de aço. Ela penetra o imaginário das crianças, muda sua representação das relações sociais de sexo e mostra-lhes que não há uma diferença "natural" de sexos. Ela, cuja imagem é feminina, bela, é também alguém que tem um sonho e que nada pode dissuadí-la de não realizá-lo. Os meninos que a vêem, que seguem sua aventura na escola, não poderão nunca mais justificar uma atitude de dominação baseada sobre o biológico, sobre uma fragilidade que, com clareza, é construída pelo patriarcado. Maud pode mudar também a vida das meninas que tem, a partir deste momento, um modelo de força e de competência: elas não se deixarão mais envolver pelos discursos sobre uma feminilidade frágil, dependente e submissa.

Sua família, suas amigas/os são a postos para apoiá-la, mas mesmo se não houvesse lá não estivessem, estou certa que ela prosseguiria seu caminho da mesma maneira.

« Obediente aos deuses soberanos do mar e do vento, fugindo do quotidiano, alimento minha necessidade insaciável do maravilhoso, de aventura e de diferença . » (PMN,127)

Mas e a viagem? Acho que suas aventuras poderiam ser classificadas de "perigo extremo", quatro meses sozinha e sem assistência para a travessia do Atlântico norde e dois meses e meio para o Pacífico.

Maud e seus barcos formam um todo, ela sempre fala de "nós". Quando chega finalmente ao porto, Maud hesita em deixá-los , eles que partilharam tantos perigos, dores, e que se mantiveram firmes, levando-a até o fim da viagem. Ao chegar na Espanha,

« O capitão pensava que eu iria subir a bordo. ´Não, não, eu não deixo meu barco. Entraremos juntos no porto e não se coloca a questão que eu o deixe sozinho .[...] ´Obrigada, murmurei-lhe antes de cruzar a fronteira dos terrestres. Obrigada por ter me ajudado a chegar até aquil´ » (AFN,165)






E juntos, seu barco e ela, afrontam os perigos que os observam. Durante as duas travessias, Maud é obrigada a mergulhar no mar para raspar do barco os mariscos e algas que bloqueiam o leme; instalam-se até na parte habitável tendo em vista a umidade e o calor. (PMN, 15-105) E isto, nas regiões abissais de às vezes 10 km, por onde os monstros se escondem. Ela tenta dobrar as pernas, o medo jugulando-a, alerta aos tentáculos ou às mandíbulas que podiam colhê-la.

« Sem um ruído, singrando a superfície do mar, um tubarão-toupeira se aproxima [...] Olho-o fixamente. Meu coração está prestes a explodir em meu peito .[...] Através uma derrisória muralha de água eu escruto, alarmada, o corpo afilado azul metálico desta repentina ameça. Com a visão de seus olhos glaciais, de seus músculos de aço, tenho o sentimento de que ele é invulnerável. Como um lobo solitário em busca de sua presa, ele rodeia o Océor, meu pequenino barco a remo que o movimento faz vibrar. » (PMN,13)

Mas nem tudo é horripilante todo o tempo, senão a aventura não teria gosto ou sentido. Há a magnificência do mar, suas cores, suas texturas de água, os pequenos peixes que seguem o barco, as noites estreladas e as águas que brilham de mil cintilações. E há sobretudo este amor pelo oceano que a habita, uma paixão que a faz ver beleza em toda parte :

« O oceano torna-se uma pessoa, um amigo do qual narro os humores em meu diário de bordo. Ele é todo poderoso. Seu carisma e sua força me fazem tremer mas seus segredos me fascinam. Apaixono-me, sua beleza me confunde. [...] Estou pasma, cada manhã ao me levantar. São as primeiras luzes alaranjadas do sol que me acordam, abro os olhos e as observo se transformar aos poucos, elas se tornam cada vez mais vivas e ácidas. Bebo estas cores-vitamina gulosamente, torno-se insaciável e sua lembrança imprime-se no mais fundo de mim mesma, isto me ajuda a assumir minha vida quotidiana, rude e dolorosa. (AFN,78) Claro, o risco é inerente a cada um de meus movimentos, mas que felicidade de estar ali. » (AFN,75)

Estas são aventuras que terminam bem. Maud é recebida com festas, seu nome aparece em todos os mídia, o presidente da republica francesa a recebem oferece-lhe um cargo ( que ela recusa) e ela retoma sua vida, mas sempre viva sua paixão pelo mar . .

« Esta viagem, é antes de mais nada um sonho, o de viver algo de forte com o oceano [...] Eu tinha um desejo de viver verdadeiramente uma grande aventura. E de viver sozinha, de empurrar os limites. Eu queria ir ao limite de mim mesma , ao cabo de minhas emoções. Ultrapassar meu corpo e seu potencial. E avançar. [...] Nesta aventura, há apenas uma coisa que me faz aguentar e não abandonar: é unicamente minha vontade. » (AFN,63)

É isto, a aventura no feminino: a construção de si.

Não, ela não pára por aí : em 2006 Maud parte para uma volta ao mundo a vela, solitária e sem assistência. No dia 15 de outubro inicia uma nova aventura de 14 500 km percorrendo os mares do Sul, do leste para oeste, isto é, contra a corrente, como ela adora fazer. Partindo da Ilha da Réunion, passa pelo cabo da Boa Esperança, o cabo Horn, o cabo Leeuwin, com o objetivo de voltar a seu porto de partida cinco meses depois.



Mas isto, é uma outra história !




Fonte:  Tania Navarro

domingo, 4 de março de 2012

Chapolin - Chirrin Chirrion do Diabo - Completo



Ser Arte

Podemos falar de expressão cultural, artística ou religiosa;


Mas, sem racionalizar, o que percebemos é que é bonito de se ver.








Diferente das tatuagens contemporâneas, as pinturas corporais indígenas não são nada aleatórias. Os desenhos marcam sua identidade, além de a tinta protegê-los contra o sol, insetos e maus espíritos.





Assim como nossas vestes, essa pintura serve à eles como uma "segunda pele", que sinaliza seu status social e qual a família de origem. 




























Se somos aquilo que comemos, então também somos o que respiramos, pensamos e até o que vemos;




Desta forma, ouso dizer que os nativos brasileiros são uns dos povos mais integrados com a Natureza. Sua harmonia é tamanha, que sua beleza evoca o natural e o selvagem, sendo sua estética uma arte natural, de pura exaltação ao paraíso em que vivem









Parabéns, piscian@s!